Terra Brasilis

“As cigarras sentiram os tremores primeiro.” – A Bandeira do Elefante e da Arara – Christopher Kastensmidt – Editora Devir

Em tempos em que a apropriação cultural tem estado na pauta de discussão dos internautas, ler “A Bandeira do Elefante e da Arara” é, no mínimo, uma experiência para se pensar.Para quem não sabe o autor do livro, Christopher Kastensmidt, é norte-americano, radicado em território brasileiro há anos. Escritor com publicações profissionais desde 2005, Christopher coloca como suas conquistas mais importantes na área da Literatura, as obras publicadas no Brasil, mais pontualmente as aventuras de Gustav van Oost e Oludara, os dois integrantes da bandeira que dá título ao livro. O que é muito interessante, para a discussão. Afinal, Christopher não escreve Fantasia ambientada em um universo de referências europeias, como fazem muitos dos nossos, nem que remetam ao universo fantástico de seu país de origem, os EUA. A fantasia de seu romance, é ambientada no Brasil do século XVI e retrata cenários como Olinda, Salvador, ou o Rio de Janeiro em seus momentos mais incipientes e, talvez, mais frágeis. A ideia de que em algum momento o glamouroso Rio de Janeiro de nossos dias tenha sido apenas um forte que mal fazia frente às ameaças de homens ou criaturas da região, por exemplo, tira o chão do leitor. Diverte e inquieta.

O livro está organizado em dez capítulos que seguem uma estrutura fixa, e cada um deles conta uma aventura diferente dos dois improváveis cavaleiros. As três primeiras histórias já tinham sido publicadas anteriormente de forma separada, através da coleção Asas do Vento, também da Ed. Devir. E a primeira delas foi publicada originalmente na revista norte-americana Realms of Fantasy, em 2010, tendo recebido o prêmio de melhor história, concedido pelos leitores da revista. Esta primeira noveleta, “O Encontro Fortuito de Gerard fon Oost e Oludura“, foi nominado ao Prêmio Nebula, um dos mais importantes prêmios para a Literatura Fantástica do mundo. Com isso, Christopher conseguiu duas façanhas: além da conquista pessoal, colocou o Brasil no mapa do Fantástico do mundo inteiro. De repente, leitores dos EUA, e de países tão longínquos quanto a Romênia e a Inglaterra, de onde geralmente recebemos material, de repente, eu dizia, esses leitores descobriram o Saci-Pererê, o Curupira, a Iara, se depararam com lugares que a distância histórica desenha como quase míticos, e descobriram tribos ferozes, como os Goitacás.

Agora, ao que vamos: esses leitores estrangeiros não descobriram o Brasil de Christopher sozinhos. Eles o fizeram, acompanhados de um contingente enorme de leitores brasileiros que, subitamente, foram apresentados a um Brasil desconhecido. Um Brasil que eles sequer imaginavam existir. O Brasil onde eles moram, em outro momento histórico, desde a perspectiva da Literatura de gênero, Fantástico, para quem gosta de Fantástico, de Aventura, para quem prefere esse veio – não é a toa, que o livro é dedicado aos alunos brasileiros.  Kastensmidt sabe para quem escreve e fala diretamente com ele. Quem lê suas histórias e mora, por exemplo em Olinda, dificilmente olhará para a sua cidade com o mesmo olhar. E o mesmo acontecerá com os cariocas ou os baianos. Ou para leitores de todo o território, quando se depararem com o que restou de nossas matas. Quem sabe se ler esse ou aquele capítulo não estimule alguém a defender com maior ímpeto os corais do Amazonas? Sempre resta uma esperança e a Literatura tem essa como uma de suas mais importantes funções.

Em todo o caso: é “A Bandeira do Elefante e da Arara” apropriação cultural? Pode ser que sim. Mas o que se percebe ao ler as aventuras é que houve interesse, paixão, pesquisa, muita leitura anterior ao texto (ou na criação das ilustrações da HQ da primeira aventura).

Em duas palavras: houve respeito.

E esse é o “X” da questão da apropriação cultura, no meu entender. Antes de se dedicar à viagem alucinante da imaginação, esse autor mergulhou no país, na cultura e em sua História. Antes de jogar com as palavras e o interesse do leitor, esse autor tentou entender sobre o que ia falar. Antes de inventar suas aventuras pura e simplesmente, esse autor se informou a respeito do material imaginário sobre o qual se dispunha a escrever.

Acredito que mais do que qualquer outra coisa, o livro de Christopher é um exemplo de que apropriação cultural, sobretudo em um mundo globalizado como o nosso, é inevitável. Mas não como se fosse uma roleta russa. Antes, como um jogo que se joga de olhos, ouvidos e coração aberto.

Quando autores e leitores fazem isso, o resultado sempre lança uma luz de compreensão sobre nós mesmos.

Compreensão que buscamos, respeito que cultivamos.

É desse jeito que aquilo que chamamos de “apropriação cultural” em um tom um tanto pejorativo, não subtrai, mas soma: soma cultura, visões, diversão, informação. Coloca na roda do Mundo o que estava escondido, e revela a nós mesmos o que sempre nos pertenceu, mesmo quando não sabíamos que era nosso.

O Fantástico não bebe de uma fonte só. De fato, é ele as milhares de fontes que alimentam o espírito, a imaginação e a esperança humanas.

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