A escultora sonhos

Tem alguém aí???” – Mayara Lista – Naruna


Hoje eu vou sair da minha zona de conforto e comentar sobre uma História em Quadrinhos. Não que eu não goste de HQ. Mas me confesso consumidora do material de massa: Maurício de Sousa, Marvel e DC. O primeiro eu acho muito bom, no sentido de “muito”, mesmo. Imagine algo que você gosta muito. Agora imagine muita quantidade desse algo que você gosta muito. Bom, agora você sabe o quanto eu acho o Maurício bom. A Marvel e a DC são divertidos. E se fosse pouco, mais de uma HQ de super-herói me levou a pensar, me levou, pasmem alguns de vocês que não acreditam nas possibilidades da cultura pop, à Filosofia. Consumi algum mangá, também. Essas coisas. Mas essas leituras não me tornam uma íntima da linguagem, de modo que você pode me achar, simplesmente, uma deslumbrada. Vai? Sou mesmo.

O caso é que durante a gravação de um dos episódios de “Folclore BR: Somando Visões” deste ano, tive a oportunidade de bater um papo com Mayara Lista, ilustradora e designer brasileira, formada em Comunicação Visual e Design pela UFRJ, com estágio de um ano na Kingston University, de Londres, onde estudou ilustração. Mais uma dessas histórias que o Brasil teima em não ver, em não ouvir, em não acreditar, nestes tempos bicudos em que uma fakenews vale mais do que um jornal inteiro.

Pois a Mayara é mais uma dessas criadoras que olha ao redor e enxerga um país cheio de belezas, possibilidades e de histórias para serem contadas. Problemas temos, é claro, todo mundo tem. Mas isso não significa o fim de nada — antes, parte do processo. Em todo o caso, foi desse Brasil que Mayara conhece que ela tirou a inspiração para criar essa pequena beleza chamada Naruna.

Naruna é uma menina que esculpe carrancas. Só isso já foi o suficiente para captar a minha atenção: de pequena, vi carrancas durante as Feartes, as sensacionais edições da Feira Nacional do Artesanato, que aconteciam em Gramado. Nunca mais a capital do chocolate gaúcho promoveu algo tão bom, tão plural, tão brasileiro.  Vinha gente de todo o país, inclusive um grupo de candomblé da Bahia, em todo o seu esplendor. E, bem, havia uma banca que sempre trazia carrancas. Assustadoras, todas elas. Eu nunca passava muito perto de nenhuma. Fosse hoje, eu daria um jeito de trazer alguma para casa, mas na época não cogitava algo tão terrível em minha sala.

Bom, como eu dizia, Naruna trabalha em uma tenda e esculpe carrancas. Mas as suas carrancas não funcionam, porque são “fofas”. E todo mundo sabe que se uma carranca não mete medo, não espanta as assombrações que povoam o rio São Francisco. Daí que as coisas precisam mudar, ou ela terá de buscar outro trabalho.

E paro por aqui. Paro, porque a história de Naruna merece ser descoberta, apreciada e abraçada em toda a sua beleza. Beleza narrativa e beleza estética, sobretudo. Com poucos diálogos, mas muito texto subentendido em cada ilustração, a HQ traz o colorido exuberante do traço agudo e particular da autora. Como a personagem, é uma obra doce e firme, forte em sua poética de cores e ação, que encontra lugar para a indagação, o humor e o assombro. A presença do imaginário popular vai muito além da carranca do início da narrativa, com a inteligente e audaciosa solução de não nos dizer quem são os personagens folclóricos que contracenam com a protagonista — e o melhor disso é que essa explicação não faz falta! A história é suficientemente rica e bem solucionada por si mesma, e mantém-se mesmo quanto não conhecemos a identidade de algum protagonista, porque independente dos nomes, sua função icônica é mantida, revelando o grau da intimidade da autora com todos os signos que compõe a sua aventura gráfica.

E por falar em aventura, Naruna é mais uma das obras que compõe o mundo literário da produção independente, esse sombrio e desconhecido território do imaginário brasileiro, onde autores de todas as regiões brasileiras estão escrevendo a página mais criativa do cenário literário do momento, a mais significativa e mais pessoal — em contrapartida da produção nacional publicada por editoras profissionais, aliás, cada vez mais perdidas no atual cenário de modernidade virtual. Produzida por conta própria, graças ao apoio de dezenas de pessoas através do financiamento coletivo do Catarse, a HQ de Mayara só pode ser adquirida junto da autora.

Então não perde tempo: vá ao mayaralista.com.br e encomende o seu exemplar. Que chega via Correio, com uma dedicatória personalizada. Melhor do que isso, só se pintar um desenho animado, desses que quando a gente menos espera, concorre a algum Oscar, para surpresa dos brasileiros que acham que o Brasil é tudo, menos Brasil.

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